As ruas do Centro Histórico de Porto Alegre ganharam ares de 1985 com o início das gravações de Minha Sombra Luminosa, longa-metragem que narra a improvável amizade entre o poeta Mario Quintana e a jovem fotógrafa Liane Neves. A produção, com roteiro e direção de Tomás Fleck, estrela Fernando Eiras no papel do icônico escritor e Klara Castanho como a fotógrafa, e busca recriar com fidelidade locais frequentados pelo poeta, como a Biblioteca Pública do Estado e o antigo Hotel Majestic.

O roteiro foca na relação de confiança estabelecida entre a profissional em início de carreira e o poeta, que na época tinha quase 80 anos e era conhecido por ser arisco e avesso à própria imagem. Inspirado em fatos reais, o filme explora como o trabalho documental de Liane se transformou em uma missão pessoal para ajudar Quintana em um momento de vulnerabilidade habitacional, mudando a trajetória de ambos.

A trama toca em um episódio delicado da vida do escritor: o risco de perder sua moradia no tradicional Hotel Majestic, espaço que hoje abriga a Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. É a partir dessa situação que Liane ultrapassa os limites da fotografia e passa a interferir diretamente na vida do poeta, ponto central da narrativa do filme.

Para Fernando Eiras, que empresta rosto e voz ao poeta gaúcho, o papel representa algo que transborda os limites da linguagem. “A arte consola, ampara, a arte salva. É um filme sobre o encontro com a arte, com a poesia. É muito difícil falar sobre como me sinto estando neste papel, não tenho palavras, não cabe em mim. Este filme traz a questão do demasiado encontro entre duas solidões. Temos uma aliança muito bonita e fraternal entre Mário e Liane. Estamos fazendo este filme porque estamos afirmando a vida de Mário”, declarou o ator.

Klara Castanho, que carrega o projeto consigo desde quando ele era apenas uma ideia, também não esconde a emoção. “O projeto chegou para mim em 2022, quando era só um desejo do Tomás, era apenas o livro que ele havia escrito e uma vontade. Quando vi o projeto tomando vida, era como se eu estivesse sonhando um sonho que nem podia imaginar sonhar. Minha maior preocupação é que a Liane real se identifique com o que está vendo na tela. Existem adaptações, mas quero que ela se reconheça ali. Estou muito feliz. Estamos apenas no início e já gravamos momentos tão cruciais, estamos com tudo”, afirmou a atriz.

A produção é um esforço coletivo enraizado no Rio Grande do Sul. A produtora executiva Chica Mendonça destaca o caráter colaborativo da empreitada: “É um trabalho de composição de equipes, em que 99% dos profissionais são daqui do Sul. É realmente um filme feito por uma equipe grande, com todos voltados para fazer o melhor, em torno de uma representatividade muito especial, que é a de Mário Quintana, aqui no Rio Grande do Sul e também no país.”

A escolha do elenco foi um processo criterioso e demorado. O produtor executivo Ernesto Soto explica que a seleção levou quase um ano: “Faz quase um ano que trabalhamos na seleção de atores. Fizemos um processo criterioso e iniciamos pelos papéis principais, sobretudo por quem interpretaria Mário Quintana, que passou por muitos testes antes de ser definido.”

O desafio de transportar Porto Alegre para os anos 1980 recai sobre a equipe de produção de locações, liderada por Bruno Pallaoro. Para ele, o trabalho vai muito além do cinema: “Nosso maior desafio é representar esses cenários históricos mantendo fidelidade ao período. Retratar uma cidade em plano aberto, nos anos 1980, é muito difícil, é um processo bastante criativo. Nosso trabalho é gigante em prol da valorização da cidade, da cultura, do cinema e do audiovisual como um todo. Representamos Porto Alegre por meio de cenários para esses projetos. Somos hoje o terceiro polo audiovisual do país.”

O título da obra resgata uma frase carinhosa dita pelo próprio poeta à fotógrafa durante seus encontros cotidianos pelas ruas da capital. Mais do que um registro afetivo, a expressão sintetiza a essência do filme: a luz que duas pessoas, em momentos muito distintos da vida, foram capazes de projetar uma sobre a outra. Com 22 diárias de gravação previstas, o projeto pretende não apenas homenagear uma das maiores figuras literárias do Brasil, mas também celebrar a sintonia artística entre a poesia e a fotografia. O lançamento oficial de Minha Sombra Luminosa está programado para o segundo semestre de 2027.