A Seleção Brasileira venceu o Japão de virada e estreia nas oitavas neste domingo (5), em Nova Jersey. Milhões de brasileiros vão se lembrar para sempre de onde estavam quando Casemiro e Martinelli balançaram a rede. Para o neurologista Wyllians Borelli, coordenador do Centro de Memória do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, isso não é coincidência. É neurociência.

Emoções intensas ativam a amígdala, que por sua vez reforça o hipocampo, a região do cérebro responsável por consolidar memórias. Andreia Ribeiro e colegas da Universidade de Lisboa estudaram (https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2023.1116747/full) torcedores dois anos após Portugal vencer a Eurocopa de 2016 e confirmaram que a paixão pelo futebol dispara uma cadeia de reações, antecipação, intensidade emocional e repetição social, que fixam lembranças autobiográficas de forma permanente. Na prática, é saber exatamente o que você estava fazendo quando o Brasil marcou.

O cérebro de quem torce – Momentos marcantes do futebol ativam áreas do cérebro ligadas à emoção, recompensa e memória. A consequência disso é facilitar a lembrança não apenas dos resultados – mas também do local onde estava, com quem assistimos, e como nos sentimos naquele instante. Mais especificamente, Ricardo Cayolla e equipe realizaram 53 exames de ressonância magnética funcional em torcedores e descobriram (https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/cb.2247) que cenas de vitória ativam com muito mais intensidade as regiões ligadas à memória e ao sistema de recompensa por dopamina do que qualquer outro estímulo neutro. Pesquisa semelhante da Universidade Duke chegou à mesma conclusão: quanto maior o investimento emocional no time, mais duradoura a memória do jogo. É exatamente por isso que tantas pessoas conseguem lembrar exatamente onde estavam em gols históricos, finais emocionantes e conquistas da Seleção.

Torcer também exercita a cabeça – O debate sobre escalação, a discussão de táticas e o histórico de confrontos exigem flexibilidade cognitiva constante. Clinton Merck, Jeremy Yamashiro e William Hirst, de Princeton e da New School for Social Research (https://par.nsf.gov/servlets/purl/10345269), mostraram que torcedores de um time específico formam memórias coletivas muito mais detalhadas e consistentes do que torcedores do esporte em geral. Esse engajamento contínuo é um dos principais fatores na construção da chamada reserva cognitiva, associada à proteção contra o declínio cognitivo.

Quando o futebol ajuda quem tem Alzheimer – A paixão pelo esporte costuma se consolidar cedo na vida e por isso resiste melhor à degradação inicial causada por doenças como o Alzheimer. Médicos em projetos na Escócia e na Espanha, documentados em revisões da Cochrane, usam vídeos de Copas antigas e narrações de gols como gatilhos em terapias de reminiscência e registram melhora no engajamento social e no afeto positivo de pacientes com demência avançada. É justamente nessa fronteira entre memória, envelhecimento e neurodegeneração que Borelli concentra sua pesquisa, o território científico que explica por que um gol visto há décadas ainda faz o coração acelerar.