Quem passa pela Rua dos Andradas e avista a imponente Igreja de Nossa Senhora das Dores, com suas escadarias monumentais e torres brancas que recortam o céu do Centro Histórico, contempla o templo católico mais antigo de Porto Alegre. No entanto, por trás da beleza arquitetônica dessa joia barroca e gótica, esconde-se uma das lendas mais sombrias e fascinantes da capital gaúcha. Uma história que mistura injustiça, fé e uma suposta maldição que desafiou o tempo e intrigou os moradores da cidade por exatamente um século.
Para compreender o mistério, é preciso voltar ao início do século XIX. A construção da igreja começou em 1807, mas as obras avançavam em um ritmo extremamente lento, dependendo de doações e do trabalho de pessoas escravizadas. Foi nesse cenário que um homem negro escravizado chamado Josino, que trabalhava na edificação do templo, foi acusado de cometer um crime grave para a época: o roubo de objetos de valor e miudezas pertencentes à irmandade da igreja.
Apesar de clamar por sua inocência, Josino foi julgado de forma sumária e condenado à morte por enforcamento. A execução pública ocorreu na antiga Praça da Forca, onde hoje fica a Praça Brigadeiro Sampaio, bem próxima ao templo. Relatos da época contam que, momentos antes de o laço ser ajustado em seu pescoço, Josino olhou na direção da estrutura inacabada da igreja e lançou um juramento terrível diante da multidão, afirmando que seus feitores e os homens que o condenaram jamais veriam as torres daquele templo concluídas.
Um século de atrasos inexplicáveis
O que parecia ser apenas o desespero de um homem condenado ganhou contornos misteriosos com o passar das décadas. A praga de Josino começou a ecoar na realidade da cidade à medida que o tempo passava e a igreja simplesmente não ficava pronta. Enquanto outras edificações de Porto Alegre erguiam-se rapidamente, as obras da Igreja das Dores sofriam com uma sequência interminável de problemas financeiros, desentendimentos políticos, falta de materiais e mortes repentinas de engenheiros e provedores da irmandade.
Geração após geração, os porto-alegrenses viam o templo funcionar sem as suas torres, mantendo o aspecto de uma construção interrompida. Os responsáveis originais pela condenação de Josino e os primeiros arquitetos morreram sem ver o projeto finalizado, exatamente como o homem havia previsto no cadafalso. A situação era tão comentada na província que a expressão “obras das Dores” virou um ditado popular na Porto Alegre antiga para se referir a qualquer projeto que parecia nunca ter fim.
O feitiço do tempo só foi quebrado em 1907, quando as torres sineiras foram finalmente finalizadas e a igreja foi considerada concluída. Coincidência ou não, o término da construção ocorreu exatamente cem anos após o lançamento da pedra fundamental do templo. Historiadores e pesquisadores locais apontam que, além do mito popular, a demora real de um século deveu-se à escassez de recursos em um Rio Grande do Sul marcado por guerras civis, como a Revolução Farroupilha.
Mesmo com as explicações lógicas da história oficial, a lenda da maldição de Josino permanece viva no imaginário cultural do Centro Histórico. Hoje, a Igreja das Dores é reconhecida como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atraindo fiéis e turistas do mundo inteiro. Suas torres imponentes, que demoraram um século para tocar o céu, continuam de pé como um lembrete silencioso de uma das memórias mais profundas e místicas do passado de Porto Alegre.