Evaristo Barbat Mutti voltou ao centro das atenções em Porto Alegre nesta sexta-feira (18), após ser preso preventivamente na Operação Cinesia, deflagrada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul. O nome de Mutti, porém, já é conhecido há décadas nos registros e investigações que envolveram o jogo do bicho e os jogos eletrônicos na Capital.
Atualmente assessor parlamentar e ligado ao gabinete do vereador Giovane Byl, do Podemos, Mutti é uma figura com trajetória no carnaval, no associativismo e no meio esportivo. Ao mesmo tempo, seu nome aparece em documentos oficiais e reportagens históricas relacionados ao universo do jogo do bicho e dos bingos em Porto Alegre.
A RELAÇÃO COM O JOGO DO BICHO
Um dos principais registros está no relatório final da CPI dos Bingos, realizada pelo Senado Federal. O documento cita Mutti ao tratar das atividades de João Carlos Cunha Franco, conhecido como Jonca, identificado no relatório como um dos principais nomes do chamado Grupo da Sorte, grupo que reunia banqueiros do jogo do bicho em Porto Alegre e na Região Metropolitana.
O relatório parlamentar afirma que Mutti era sócio de Jonca em empreendimentos de bingo na Capital. O documento também relaciona Mutti à tradicional Associação das Entidades Carnavalescas de Porto Alegre e à Escola de Samba Estado Maior da Restinga.
O chamado Grupo da Sorte também foi citado em investigações e reportagens sobre a exploração clandestina do jogo do bicho no Rio Grande do Sul. Reportagem publicada nesta sexta-feira (18) pela GZH relembra que Mutti integrava esse grupo, que reunia cerca de 25 banqueiros do jogo do bicho na Capital.
DO JOGO DO BICHO AOS BINGOS
Com a mudança do cenário dos jogos de aposta, o nome de Mutti passou a aparecer também nas investigações envolvendo os bingos.
O relatório da CPI dos Bingos registra que Evaristo Barbat Mutti era sócio de João Carlos Cunha Franco em um bingo de Porto Alegre. A documentação do Senado também menciona outros personagens ligados ao mercado de jogos e às investigações sobre a exploração de bingos no Estado.
Reportagens publicadas na época também registraram a presença de Mutti no entorno do Bingo Roma, na região da Azenha, estabelecimento que ganhou notoriedade em Porto Alegre. Uma reportagem da época registrou ainda que Mutti era citado como sócio do empreendimento ao lado de Jonca.
UMA FIGURA CONHECIDA NO CARNAVAL E NA POLÍTICA
A trajetória de Mutti, entretanto, não ficou restrita ao universo dos jogos.
Ele foi um dos fundadores da Escola de Samba Estado Maior da Restinga e presidiu a Associação das Entidades Carnavalescas de Porto Alegre. Também ocupou funções relacionadas ao Ypiranga Futebol Clube, no bairro Santana.
Documentos oficiais do Município mostram que Mutti já ocupava cargo de assessor parlamentar na Câmara Municipal de Porto Alegre no início dos anos 2000. Um ato publicado no Diário Oficial do Município, em 2005, registra sua nomeação como assessor parlamentar de mesa.
Anos depois, registros oficiais mostram novamente sua ligação com a estrutura do Município e da Câmara. Em 2021, por exemplo, a Prefeitura registrou a prorrogação de sua cedência à Câmara Municipal.
Atualmente, segundo reportagem da GZH, Mutti atua como assessor parlamentar do Podemos no gabinete do vereador Giovane Byl, que também foi preso na Operação Cinesia.
O EPISÓDIO ENVOLVENDO O YPIRANGA
A relação entre Mutti, política e recursos públicos também já apareceu em outro episódio.
Em 2023, uma emenda Pix de R$ 500 mil foi direcionada ao Ypiranga Futebol Clube, entidade na qual Mutti ocupava função de dirigente. A verba foi destinada a obras na sede do clube.
Segundo reportagem publicada pela GZH, uma inspeção da Controladoria-Geral da União apontou que não havia sido comprovada a aplicação de R$ 300 mil dos R$ 500 mil previstos no projeto. A entidade ficou responsável por apresentar a documentação referente aos gastos.
O episódio, por si só, trata de questionamentos sobre a comprovação da aplicação dos recursos e não deve ser apresentado como uma condenação criminal de Mutti.
O QUE ACONTECE AGORA
A prisão de Mutti nesta sexta-feira ocorre em um novo contexto: a Operação Cinesia, do Ministério Público, que investiga suspeitas relacionadas à utilização de mais de R$ 2 milhões em recursos públicos destinados à saúde por meio de emendas parlamentares.
Segundo o MPRS, a investigação apura a circulação de recursos entre contas de uma organização da sociedade civil, empresas, dirigentes, agentes públicos e outras pessoas investigadas. Ao todo, foram cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e nove mandados de busca e apreensão em Porto Alegre e Imbé.
Mutti foi preso juntamente com o vereador Giovane Byl e outras duas pessoas.
A prisão preventiva é uma medida cautelar determinada pela Justiça e não significa, por si só, que os investigados tenham sido condenados ou que as suspeitas tenham sido definitivamente comprovadas. A investigação continua.
Assim, o nome de Evaristo Mutti atravessa diferentes momentos da história recente de Porto Alegre: do carnaval e da atuação comunitária às antigas investigações sobre o jogo do bicho e os bingos e, agora, a uma nova investigação envolvendo recursos públicos.