Quem caminha pela Praça da Matriz, observa a imponência do Palácio Piratini ou assiste a um espetáculo no Teatro São Pedro dificilmente imagina o que está escondido bem debaixo dos seus pés. Longe de ser apenas mais um mito urbano inventado para assustar os curiosos, a existência de uma rede de túneis secretos em Porto Alegre é um fato histórico documentado. Essas passagens subterrâneas, construídas há um século, guardam segredos de revoluções, estratégias de fuga de governantes e mistérios que moldaram o Rio Grande do Sul.
A rota de fuga presidencial: O Túnel da Praça da Matriz
O túnel secreto mais famoso e com existência comprovada liga diretamente o subsolo do Palácio Piratini ao fosso do Teatro São Pedro. A estrutura foi idealizada no início da década de 1920 por Borges de Medeiros, uma das figuras políticas mais poderosas e controversas da história do Estado. Naquela época, o clima político no Rio Grande do Sul era de extrema tensão, culminando na Revolução de 1923.

Temendo cercos militares, bombardeios ou invasões à sede do governo, Borges de Medeiros projetou a passagem subterrânea como uma rota de fuga estratégica de emergência. Caso o Palácio fosse invadido, o governante poderia evacuar o prédio secretamente e sair de forma segura do outro lado da praça, exatamente dentro do teatro. O túnel existe até hoje, apresentando paredes de tijolos maciços e teto em arco. Embora permaneça fechado ao público geral por questões de segurança institucional, ele já foi cruzado por historiadores, engenheiros e autoridades em vistorias técnicas.
Contrabando e tropas nas rotas da igreja das dores
Se o túnel do Piratini tinha fins de proteção política, outras passagens sob o Centro Histórico tinham objetivos militares e comerciais. Existem fortes indícios históricos e relatos de engenheiros sobre ramificações que ligavam a Igreja de Nossa Senhora das Dores, a mais antiga da cidade, a antigos quartéis do Exército e à região portuária do Rio Guaíba.
Durante o século XIX, especialmente no período da Revolução Farroupilha, movimentar soldados e munições pelas ruas de Porto Alegre era arriscado devido aos alvos fáceis criados para os inimigos. Os subterrâneos permitiam o transporte seguro de pólvora longe dos olhos adversários. Além da logística de guerra, historiadores apontam que algumas dessas rotas também serviam ao comércio clandestino de mercadorias que chegavam de navio, escapando da pesada fiscalização e dos impostos cobrados pela alfândega da época.
O que aconteceu com os subterrâneos de Porto Alegre?
A resposta para o motivo de essas passagens não estarem abertas à visitação turística está no próprio crescimento e modernização de Porto Alegre. Ao longo do século XX, a cidade passou por intensas obras de infraestrutura que transformaram o ambiente urbano do Centro Histórico.
A instalação de extensas redes de esgoto, tubulações de água encanada, fiação subterrânea e, principalmente, as fundações profundas dos grandes edifícios modernos acabaram interferindo no traçado original dessas galerias. Por conta disso, muitas delas foram lacradas, cortadas por tubulações modernas ou simplesmente desmoronaram com o peso das novas construções, transformando o que restou em um patrimônio arqueológico invisível aos olhos de quem passa pela superfície.