As mudanças climáticas deixaram de ser um problema ambiental distante e tornaram-se o determinante central da saúde pública atual. Com essa explicação, o 6º Summit Ambiental do Hospital Moinhos de Vento foi aberto na manhã desta terça-feira (9). A provocação foi feita pelo convidado especial do evento, Paulo Saldiva, com a conferência magna “Resiliência ambiental e saúde: quando a adaptação se torna essencial”.

Médico patologista, Saldiva é professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), pesquisador nas áreas de poluição atmosférica e saúde ambiental, membro do Comitê de Qualidade do Ar da Organização Mundial da Saúde (OMS), além de pesquisador associado da Universidade de Harvard. Um currículo de peso para debater como as mudanças climáticas estão sendo determinantes para a saúde.

O encontro destacou a recente catástrofe ambiental enfrentada pelo Rio Grande do Sul, ressaltando o papel heroico da medicina gaúcha, que atuou na linha de frente no resgate de vítimas, no tratamento de doenças como leptospirose e hepatite, e no acolhimento de traumas psiquiátricos severos decorrentes das enchentes, como o projeto Recomeçar, promovido pelo Hospital Moinhos de Vento, através do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), do Ministério da Saúde. “A crise ambiental deixou de ser um ambiente remoto do urso do iceberg para o quintal da nossa casa, afetando a nós e as pessoas que nós amamos ou que estão no entorno”, comentou, referindo-se às enchentes no RS.

Nas diversas pesquisas em que atua, o médico apresentou riscos variados, desde doenças renais em trabalhadores rurais e transtornos mentais causados por desastres, até o aumento da violência e suicídio durante ondas de calor. Dados apresentados indicam que o clima extremo afeta diretamente o sistema cardiovascular e respiratório. Extremos de temperatura, especialmente ondas de calor, causam desidratação, inflamação e exigem o dobro de trabalho do coração, sendo uma causa oculta de infartos e falências respiratórias, principalmente em crianças e idosos cujos “termostatos corporais” são mais vulneráveis.

Além disso, a poluição atmosférica, agravada pelo modelo urbano de longos deslocamentos no trânsito, foi classificada como um risco grave e inescapável. Hoje, estima-se que 15% dos novos casos de câncer de pulmão ocorram em não-fumantes, com uma assinatura molecular específica diretamente atribuível à poluição do ar.

Para aliviar essas consequências, Saldiva defende a adaptação urbana e hospitalar, considerando as desigualdades sociais e as ilhas de calor em comunidades vulneráveis. E também destacou o setor da Saúde como protagonista da mudança, por meio de capacitações da Atenção Primária – treinando profissionais para identificar sinais precoces de doenças agravadas pelo clima, como a desidratação em idosos ou os impactos das ondas de calor –; de pesquisa clínica de hospitais de alta complexidade que devem liderar estudos cardiovasculares, respiratórios e psiquiátricos relacionando o clima à saúde, criando evidências biológicas para fundamentar políticas públicas; e de gestão verde hospitalar, quando instituições de saúde devem reduzir sua própria pegada de carbono e promover projetos de educação ambiental na comunidade.

O CEO do Hospital Moinhos de Vento, Mohamed Parrini concordou com Saldiva sobre os desafios que a humanidade vem enfrentando com as mudanças climáticas, especialmente os gaúchos, tão afetados pelo último El Niño. “Não estamos mais em um “e se” quando falamos das mudanças climáticas. Elas já estão aqui. É uma realidade da qual não podemos fugir e que exige adaptação e resiliência permanentes para atravessarmos os anos que virão”, garantiu.

Apesar do cenário de alerta, a mensagem final do convidado especial foi de esperança, apostando na educação climática da nova geração, que já cresce com uma mentalidade voltada para a sustentabilidade e a adaptação.

“Impacto evitável é fazer uma previsão do tempo que não diga só se tem que levar casaco, capa ou se dá praia. Quer dizer onde vai esquentar e os cuidados necessários para controlar as pessoas crônicas. Incorporar saúde na questão climática é importante para a educação”, resume Saldiva.